Patrinando

Silvino: arte positHIVa

1 de janeiro de 2019

Para estrear esta coluna sobre música, vou apresentar um artista da minha região: Baixada Santista, em São Paulo. Silvino é estudante de música LGBT não binário. O termo significa que é alguém que não se vê nem como homem nem como mulher. Então, acontece uma fluidez entre os gêneros: características consideradas socialmente femininas e masculinas são incorporadas na existência. A obra é impactante e intuitiva, sem dúvidas. Aborda um tema de saúde pública que parece ter sido propositalmente esquecido: a vida das pessoas soropositvas, que convivem com o vírus do HIV/AIDS. Como os corpos soropositivos são vistos? Como é o relacionamento com alguém soropositivo? Aliás, as pessoas que não têm o vírus assumem parceiros soropositivos? Tudo isso é cantado na voz de Silvino.

Influências múltiplas

Cada vez que ouço me lembro de algum cantor ou cantora, mas mesmo assim não consigo definir o que é definitivamente. Já pensei em tantos nomes! Entretanto, as influências de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elza Soares (que inclusive o apoiou e elogiou) e Elis Regina estão ali.  É como se estivessem diluídas como um degradê de aquarela que forma uma bonita imagem. As sensações, sentimentos, vivência e o olhar de como enxerga o mundo  são refletidas diretamente na música. Não é só algo audível, é sinestésico. Seus poetas favoritos são Cecília Meireles, Mario Quintana e Vani dos Santos, que é sua mãe. É lindo de ouvir essa mistura artística. Esse é o grande trunfo. A originalidade é contagiante.

A Baixada Santista é seu território: circula por aqui fazendo shows, conhecendo novos artistas, indo à praia. Aqui é um território enrustido. Parte dos artistas daqui ainda são homens dentro do padrão aceitável para a sociedade conservadora. Por isso, é hostil para quem é LGBT ou seja diferente por qualquer motivo, embora tenha uma boa presença de pessoas fora do padrão. Vai entender, não é? Então, não tem como separar artista do cotidiano.

Canções e resistência

EmOlhos Amarelos“, música lançada há dois anos, é mostrada a coragem que é viver e falar algo considerado tabu. Por isso, o nome é bem forte e direto: faz alusão aos olhos que podem ficar amarelados quando alguém faz o uso do coquetel antirretroviral. O clipe é bem colorido em tons roxos e brancos, tem várias referências sobre a epidemia que alastrou o país nos anos 80 junto com uma onda conservadora que dificultou as pesquisas sobre o vírus, tanto aqui no Brasil quanto internacionalmente, além de mostrar jornais com manchetes sobre o tema e fotos de artistas que morreram em decorrência da imunidade baixa provocada pelo vírus, como o inesquecível Cazuza.

Renata Carvalho, atriz travesti que interpreta o papel principal da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”,  aparece maravilhosamente no clipe. É uma presença mais que importante, já que está sendo criticada por quem não entendeu completamente o Evangelho. Jesus fez questão de andar com os marginalizados socialmente, bebia vinho por aí, era gentil e firme quando necessário. Esse tipo de comportamento deve ser adotado por quem não suporta qualquer tipo de preconceito e ama a arte, ainda que não creia na figura messiânica como uma divindade. Viver é difícil, mas a dureza pode ser amenizada com nossos atos.

Eu sou o pé, sou o pé e o chão do mundo. Eu sou do chão, sou do chão o alimento. Eu sou o pé, sou o pé e o chão do mundo. Eu sou o chão!

Já noManifesto Húmus, vídeo produzido no Centro Histórico de Santos, é mais provocador: ruas são tomadas por LGBTs maquiados e vestidos como querem.  A mãe, Vani dos Santos, também coloca a cara no sol. Fazem questão de registrar mostrar nomes de ativistas e pessoas que morreram por causa do vírus ou da orientação sexual sendo escritos em lugares públicos, como em muros de lugares onde transita muita gente diariamente. Todos, apesar dos corpos físicos não estarem mais vivos, continuam presentes.  Silvino falou que os clipes servem para ampliar o que a música diz. O vídeo do Húmus surgiu de sua própria inquietação junto com a diretora de arte, Hugo Vicente. Sim, Silvino não para. E não pode parar.

Preconceito e amor

Como a família lida? Silvino cita na músicaHúmus“: ” minha mãe é poeta e eu sou poesia”. Escritora a partir dos 30 anos, Vani dos Santos é uma leitora voraz desde adolescente. Encontrou nas letras um porto seguro. Assim como Silvino faz com musicalmente: transforma melodias em acalento para os que não são vistos e nem abordados pelo feminismo e por parte da comunidade LGBT. Desse modo, reforça sua existência e valor. Grita pelos quatros cantos de Santos e, futuramente, do Brasil que os soropostivos existem. E refirma que não há motivos para ter repulsa ou preconceito.

Mesmo com o preconceito, não dá para conter um rio violento e impetuoso, parafraseando toscamente Bertolt Brecht. Esse é o sentimento que Silvino passa cantando: suave e forte. É como se ele se transformasse em furacão e brisa simultaneamente. Sobre esses que espalham ódio cegamente, para os que não entendem e aqueles que estão cansados ou desmotivados, uso as sábias palavras de Silvino: “Samba bee, samba”. A arte salva vidas. Literalmente. E pode espalhar amor, compreensão e conhecimento.

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3 Comments

  • Reply Preste atenção: cena local é (sempre) o novo pop | Ré Menor 10 de abril de 2019 at 16:10

    […] citei isso no primeiro texto da coluna, mas para quem não leu: sou de Santos, de São Paulo. Na região da Baixada Santista, […]

  • Reply RuteAvesdos Santos 5 de janeiro de 2019 at 07:39

    Adorei a matériá boa sorte para você neste novo ano que as verdades possam sempre serem ditas de Donna suave.

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