O Pasquim

Especial #CPRO: Ciranda de Morais, a criadora da She’sTech

4 de agosto de 2018

Todos os dias estamos cercados por pessoas. Mas, nem sempre nos abrimos para ouvir o que elas tem a dizer. Para saber o que cada um vivenciou. Talvez a gente tenha medo de perguntar, porém podemos aprender com muita gente, todos os dias. Nessa Campus Party Rondônia, ouvi muita gente que me impactou de alguma forma. Seja pelo que disse na palestra, seja pela trajetória de vida. Ou por um projeto que criou. Inclusive, conheça 6 mulheres que mais me impactaram clicando aqui. Dentre essas mulheres, está Ciranda. Mas, não foi só seu nome raro que me chamou a atenção. Ciranda saiu da sua zona de conforto, em busca de mudar uma realidade que lhe incomodava. A partir disso, ela criou o projeto She’sTech com o objetivo de fortalecer a presença feminina no setor de tecnologia. 

Seu projeto me inspirou, mesmo que eu não seja uma das mulheres da tecnologia. Portanto, tive a oportunidade de conversar com ela, para compartilhar com vocês um pouco da trajetória dela e assim, inspirar vocês também.

O que te impulsionou a começar seu próprio projeto?

A She’sTech primeiro começou como um movimento. A gente se unindo mesmo. E agora eu vejo ela como um projeto. Por que a gente quer gerar impacto a partir de ações específicas. O que me levou a criar a She’sTech foi eu estar em uma startup e eu sentir na minha busca por captação, o sexismo. Essa não representatividade. Esse não lugar de fala. As portas de vidro mesmo. Por ouvir as pessoas falarem “por que a mulher não esta na tecnologia? por que ela não quer”. Queria entender mesmo por que a gente não estava lá. Eu sei que a sociedade é machista, mas aquilo ali já era o machismo interferindo diretamente nos meus resultados, no que eu poderia entregar. Isso me impulsionou. Foi pensar: “Gente, vão nos deixar de fora da quarta revolução industrial. Vão nos deixar de fora de novo”.

Como a She’sTech pode mudar o mundo e como mudou você?

Como ela me mudou primeiro. Pois, eu acredito que para a gente mudar o mundo, a gente tem que se mudar. Eu era uma pessoa que sempre trabalhou no backstage. A primeira mudança foi: falar com estranhos. Eu tive que conhecer e engajar pessoas que eu não conhecia. Uma barreira foi essa. Eu tinha uma mentoria muito bacana, mas eu não queria falar em público. Eu lembro que fui numa faculdade falar sobre a She’sTech e lá tinha um daqueles degraus de professores, sabe? Eu cheguei lá e “nossa, eu vou ter que falar nesse palco?”. Aí uma das mulheres que estão no projeto e sempre me apoiaram, falou “Ciranda, isso não é um palco. É um degrau”. Não! É um palco. Então, assim, eu fiz o evento e não falei quase nada, por que eu ficava “acaba rápido para eu sair daqui”.

Falar em público foi um grande desafio. Aceitar os erros e aprender a errar de novo também. Por exemplo, criança erra e não tem problema em tentar de novo. A gente desaprende isso. Ficamos procurando muito a perfeição. Isso eu precisei aprender. Hoje me cobro menos de ser perfeita. Coragem de mostrar mais o que eu penso. Isso também tem relação com a perfeição. Falar em público sempre dá medo do julgamento das pessoas. Mas, é uma construção. Hoje eu sou melhor que ontem. Me transformou por que: se eu quero encorajar mulheres, preciso me encorajar primeiro. Eu me desafio todos os dias. Eu sou outra pessoa para várias coisas. E para mudar o mundo, eu acho que é mudar um por um. Eu acredito que se você muda uma pessoa, você muda o mundo. 

O que te motiva diariamente a continuar o projeto?

Principalmente, lembrar de pessoas que já me falaram que o que eu faço fez diferença. Se eu estou em um dia de cansaço, eu lembro de alguém que me disse “olha, você mudou toda a minha forma de ver as coisas”. Aí renova. Então, sempre que tem esse tipo de feedback renova. Até quando tem feedback de homens. Após eu falar no TEDx, um homem me procurou depois e falou “Ciranda, eu tenho uma filha de 2 anos e você mudou totalmente a minha forma de ver as coisas. Então, para mim foi “poxa, impactei uma menina de 2 anos”. Definitivamente, o que me motiva são os feedbacks positivos. 

Qual a primeira dica que você daria para uma mulher tirar um projeto do papel?

No Brasil a gente não tem muito a cultura de pesquisa. Mas, quando a gente tem uma ideia de negócio, a primeira coisa que precisamos saber é: qual problema que esse negócio vai resolver. Então, o primeiro passo sempre vai ser a pesquisa. Se a pessoa tiver a oportunidade de ter na cidade um evento chamado Startup Weekend, eu sempre indico. Por que é um evento que acontece no mundo inteiro, feito pela Techstars, e em 54 horas de evento você consegue tirar uma ideia do papel. Mesmo que aquela ideia que você teve durante o evento não continue, você aprende a metodologia. Para tirar uma ideia do papel, você tem que se capacitar.

Mulheres na tecnologia, por que ainda é tão raro?

Por que na infância não somos estimuladas através de brinquedos e nem estimulam nosso comportamento de liderança. Para você estar num ambiente desfavorável, precisa ser muito mais líder de si mesma. A mulher tem que trabalhar a liderança e autoconfiança. Aí chega na adolescência, tem muita cobrança por causa da beleza. Isso começa atrapalhar. Por que tem as matérias de exatas, que exigem mais dedicação. Portanto, com a cobrança pela beleza, as meninas começam a descuidar dos estudos.

Sem bons resultados, elas têm a ilusão de que não gostam de exatas e é ruim em matemática, por exemplo. Para piorar, quando vamos escolher a profissão, tem aquela questão de profissão de menino e de menina. As profissões de ciência, tecnologia, engenharia e matemática são vistas como profissões de homens. Então, assim, esse é o início de tudo. Para a gente mudar isso, precisamos de um trabalho com toda a sociedade. 

Em seu projeto Portas de Vidro, qual foi a história que mais te marcou?

Nossa, tantas histórias! Mas, vou falar a história de duas desenvolvedoras. Uma estava em um evento e o palestrante falou “me desculpe as mulheres, mas a IoT é coisa para macho”. Só que o depoimento dela foi bacana também por outro lado. Só tinha ela e outra mulher no evento, mas ela falou “eu me incomodei muito com o que ele falou e outra coisa que me incomodou muito, foi que nenhum homem se incomodou com o que tinha acontecido”. É como se fosse a naturalização dessas coisas. Nenhum homem se levantou. Por isso o trabalho da She’sTech é importante. Nós queremos conscientizar os homens de que isso não é uma coisa bacana.

As vezes os homens me perguntam o que podem fazer para ajudar e eu dou esse exemplo. Quando um palestrante falar algo assim, primeiro você não vai rir. Por que não tem graça. E a outra coisa eu acho que é válido procurar o palestrante no final e falar “olha, aquilo que você falou não foi legal”. Assim, você desconfirma ele. Você não bate palma para esse tipo de coisa e ele vai pensar duas vezes antes de repetir esse comportamento. E o outro depoimento, uma arquiteta de software e estava dando problema no projeto. Aí o cliente falou “claro né, isso é muito complexo para uma mulher fazer”. Então, assim, foram coisas que me marcaram. De saber como o mercado pensa e em que posição colocam as mulheres.  

Duas mulheres da tecnologia que te inspiram:

A Dra. Yvonne Cagle me inspira mesmo! Ela é médica cientista e ela me inspira por toda a trajetória dela. Por toda a persistência dela. A Mariéme Jamme me inspira por que ela tinha todas as piores condições que uma pessoa pode ter. Foi separada da família, foi traficada, foi presa na França, foi para abrigos de refugiados e olha tudo o que ela fez. Ela é programadora, tem uma empresa de consultoria. Ela leva tecnologia para a África, ela treina mulheres para serem programadoras. Elas duas estão tão vivas na minha cabeça atualmente, me inspiram muito. 

Sobre palestrar em Rondônia, como foi a experiência?

Nossa, foi maravilhoso! Na minha última palestra eu falei que no Brasil a gente vê muito mapa, né? A gente vê mapa, a gente vê porcentagem. A gente vê número, sempre milhões, milhões e milhões. Sempre quis conhecer o Norte do Brasil. Vir para cá foi uma experiência muito bacana, tive oportunidade de conhecer muitas pessoas. Tudo é sobre pessoas, então ontem eu conheci gente de Manaus, do Acre, daqui. Nossa, foi muito muito bacana. Foi muito gratificante. Hoje, Porto Velho não é mais um ponto no mapa. É um lugar que eu senti a energia, que eu conheci pessoas. 

Rondônia é muito esquecida e frequentemente as pessoas acham que por serem daqui não vão chegar longe. Para as meninas daqui, que tem interesse em trabalhar com tecnologia, mas estão desmotivadas por morarem longe dos grandes centros, qual a sua dica?

A gente tem diversos níveis desse sentimento, de não se sentir incluída. De você não se sentir apto. É o mesmo sentimento que as mulheres tem. Então, o que você está me falando que vocês tem aqui, é o mesmo sentimento que o brasileiro acha que não é tão bom. É o mesmo sentimento que a mulher acha que não é tão boa, é o mesmo sentimento que o negro acha. Foi tudo imposto. A gente tem que mudar isso de dentro para fora. Mas, a gente precisa parar de se colocar no lugar de vítima da situação. Temos que nos colocar no lugar de agente de mudança. Então, assim, “aí por que eu sou brasileiro, Brasil não tem jeito”, é muito fácil falar. Sim, existe machismo. Sim, existe racismo. Sim, vocês estão longes do grande centro.

Sim, ninguém tem que se sentir assim. São as dificuldades. Então, uma coisa boa da tecnologia é que você pode trabalhar remoto. Vocês podem estar aqui, trabalhando para uma empresa de outra cidade, estado ou país. Por exemplo, se a pessoa quer ser programadora, ela pode atender o mundo inteiro. Eu acho que é se tirar do lugar de vítima e ver o que precisa ser feito. Isso também é para a gente mulher, para a comunidade LGBTQ, para a comunidade negra. Para todo mundo que foi imposto como menos, como inferior. 

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