O Pasquim

Samuel Gomes: o criador do projeto Guardei no Armário

17 de junho de 2018

Guardei no armário é um projeto que nasceu de um livro que tem o mesmo nome. O autor de ambos? Samuel Gomes! Em seu livro, Samuel conta parte de sua vida sendo um homem negro. Além de ter crescido na periferia de São Paulo, ser ex-evangélico e gay. Mas, em seu canal no youtube, Samuel dá voz para pessoas como ele. Pessoas que, ao contar a própria jornada de se aceitar e ser respeitado, podem ajudar outras pessoas. Pessoas que a partir de suas narrativas nos tornam mais empáticos. Que abrem a nossa mente para o quanto o mundo pode ser cruel. Injusto. E que, na maioria dos casos, Deus é pintado como um grande vilão. Só pela maneira como a religião impõe determinadas ideias.

O projeto tem o objetivo de ajudar outras pessoas que ainda não se assumiram. Através daqueles vídeos, elas podem ter a certeza de que não estão sozinhas. Nós tivemos a oportunidade de entrevistar o Samuel, para saber um pouco sobre a sua jornada. Sobre seu processo de criação do livro e até qual foi o ponta pé inicial para o canal, entre outras coisas. Conheçam, Samuel Gomes:

Todo mundo que assiste seu canal conhece sua história. Mas, como ser negro, morador de periferia, evangélico e gay afetou sua maneira de enxergar o mundo? 

Só pra deixar bem claro, hoje em dia não tenho nenhuma religião. Costumo dizer que se a pessoa que está comigo e for meu amigo ou próximo a mim, acreditar na existência de um ser divino, seja ele deus ou alguma entidade, eu vou acreditar e respeitar. Se a pessoa não acreditar, eu também não acreditarei. Por isso, faço questão de dizer que sou ex-evangélico. A forma que eu vejo o mundo hoje é completamente diferente de como eu o entendia quando ainda era da igreja. Esses dias atrás estava pensando justamente sobre isso. De como minha percepção de mundo e realidade mudaram nos últimos anos. Eu vivi minha infância e adolescência na periferia. E faz quase 10 anos que moro na Vila Guarani, um bairro de classe média.

Lembro-me que andava por becos e vielas, por ruas estreitas, por comunidades e nunca tive medo. Acreditava que o terno e gravata me protegiam do mau que existia em morar em um lugar que muitos diziam ser perigoso. Graças a criação religiosa que minha família por parte de mãe tem, eu, minha irmã e meus primos que cresceram comigo, tivemos pouco contato com o mundo que nos rodeavam. A igreja impunha algumas limitações na “liberdade” dos filhos dos seus fiéis. Não brincávamos na rua, poucas vezes participávamos de festas e eventos religiosos na escola ou no bairro. Minha vida era escola, casa, igreja e as vezes ONGs. Tinha uma ideia totalmente distorcida do que era real, do que era certo, do que era “aceito por deus”.  Na minha casa, até os meus 7 anos de idade, não tínhamos televisão.

Quando alguém de cargo alto ia visitar o quintal que eu morava, lembro-me como se fosse hoje, de minhas tias correndo para esconder a televisão de tubo da minha avó da sala e no lugar colocar uma bíblia enorme. A Congregação Cristã no Brasil, igreja que cresci e fui membro batizado, era um lugar de refúgio para minha família. Se hoje pra mim é difícil lidar com minha negritude e com todo o racismo que esse mundo tem, fico imaginando como que era na época deles e do porque meus parentes eram tão religiosos. Talvez seja pelo fato de ser a única saída para tanto esforço por uma vida melhor. Sem contar a sensação de pertencimento, de fazer parte de um grupo e uma comunidade ou mesmo de ser importante pra alguém, mesmo que esse alguém seja um deus. 

Qual a maior lição você tirou de todas as situações que enfrentou?

Se tiver que pensar numa lição de um modo geral, eu posso dizer que aprendi a não achar que minha vida vale menos por eu ser diferente de outra pessoa. Aprendi que o ser humano é um ser único, cada qual com suas particularidades e isso não dita e nem mede o seu nível de importância. Durante boa parte da minha vida, acreditava que não era merecedor de amor de deus ou das pessoas que me rodeavam. Pensava e acreditava que nada do que eu fazia em vida era suficiente para abonar o fato de eu ser um homem diferente. Hoje percebo o mal que me fizeram de não me darem a autoestima necessária para que eu pudesse ter mecanismos para viver minha vida.

Fui muito despreparado, pois acreditava que tudo tinha um porquê e uma resposta na igreja, mesmo quando ela mesmo não me respondia o porquê eu tinha nascido gay. Hoje em dia o que eu tiro de tudo isso que passei é a certeza de que o ser humano esqueceu de olhar pro outro como igual. E na minha concepção de Divino, eu acredito que se você entende exatamente o que Ele é e o que Ele quer de mim como propósito, esse Divino já não é tão divino assim. Por isso, se alguém me diz “eu sei o que deus quer pra você, ou, deus não gosta de lgbts…” eu só penso uma coisa. Se seu deus é tão pequeno ao ponto de você o entender por completo, ele não é deus.

Pois pra mim algo Divino está muito além da nossa compreensão. Eu não sei porque nasci negro e homossexual e isso é divino. 

Você era evangélico. Por ter seguido essa religião e conhecer seus princípios, como você acha que as religiões podem abrir suas mentes para acolher pessoas homossexuais?

A primeira coisa que precisa acontecer com a igreja é deixar de ser um mecanismo de controle e domesticação das pessoas. Em segundo lugar, ela voltar a ser um lugar de conforto, calma e paz para aqueles que precisam de um lugar para isso. Por último, entender a sexualidade humana não como algo religioso, mas como algo natural do ser humano. A igreja dificilmente evoluirá para uma aceitação da sexualidade como um todo e da aceitação do diferente como é. A única coisa que eu espero dela é não destruir a esperanças de muitos que ainda as frequentam. Ser LGBT+ dentro de uma igreja conservadora, é viver em constante medo de não ser aceito por Deus, pelos seus pais, amigos, parentes…

Muito lideres mesmo com tanta informação já divulgada na mídia, em livros didáticos e por profissionais de psicologia, ainda continuam falando mal da homossexualidade. Não basta elas nos aceitarem com o discurso vazio de que “Deus aceita os homossexuais, mas não aceita suas práticas”. Isso pra mim é a mesma coisa que dizer que “Deus aceita a pessoa negra, mas não aceita sua origem, seus costumes, seus preceitos e religiões…”. É o que fazem com a gente na maioria das igrejas tradicionais que dizem nos aceitar. 

Qual a sua primeira lembrança quando perguntam “Você sempre foi gay”?

Para a resposta dessa pergunta, vou colar um trecho do meu livro “Guardei no armário”:

Quando alguns parentes perguntavam se eu tinha namoradinha, eu respondia que sim, mas, na minha mente, eu lembrava dos meus amigos mais próximos. Na minha inocência eu tinha essas lembranças e me vinha um sentimento muito bom e puro, mas não tinha coragem de falar – apesar de não ter consciência do que seria esse desejo e esse sentimento que me cercava, eu não arriscava falar algo que pudesse magoar os adultos. Minha família era extremamente religiosa, fui envolvido na igreja desde quando nasci. 

Certa vez, na casa de um desses amigos, enquanto nos divertíamos, resolvemos brincar de casinha e, como todo casal, um chegava do serviço e cumprimentava o outro com um beijo. Nesse momento da brincadeira, dei um selinho no meu amigo. Estávamos em quatro amigos e o outro casal que viu a cena fez o mesmo. Nem sabíamos o que esse ato significava, só repetimos o que os adultos faziam. Eu não sabia que isso era “beijo gay”. Essa cena eu guardei por muitos anos, nunca comentamos de novo a respeito. 

Guardei no armário, capitulo 01 – Um passado ainda presente.

Uma das integrantes de nossa equipe namora outra garota e o que ela mais escutou nesse processo de assumir o relacionamento foi “isso é apenas uma fase!”. Sabemos que isso não é uma fase, então queremos saber como você lida com preconceitos.

Não é uma fase, mas existem pessoas que dentro desse processo de aceitação se descobre bissexual. Isso não quer dizer que essas pessoas que dizem “é apenas uma fase” estão certas, muito pelo contrário. Elas dizem isso como desculpa ou alternativa para não aceitar de imediato algo novo. A sexualidade humana só interessa para o outro quando ela tem haver com você. As pessoas que não são LGBTQ+ tendem a se imaginar nesse nosso processo, tentando entender o que sentimos e o que vivenciamos.

Ouso a dizer que muitas delas não nos ouvem quando estamos nos assumindo, na real, pensam em como o mundo olhará para elas ao lado de uma pessoa LGBT. Se perguntam se vamos dar em cima dela ou dele, com medo que a homossexualidade seja algo contagioso. Com medo até que a amizade seja confundida com algo mais profundo. Sabemos que isso não acontece. Não é porque eu gosto de homens que vou gostar de todos os homens que estão a minha volta.

Não é porque uma mina gosta de outra que ela não saiba aquilo que lhe faz bem. Reduzir a sexualidade a uma fase ou escolha nos dá abertura para dizer que a heterossexualidade também é uma escolha. E não lembro de nenhum amigo hétero se assumindo hétero para nenhum pai ou mãe. Atualmente o que eu tenho feito para combater a homofobia é não deixar meu projeto acabar. É ter cada vez mais histórias para colocar no canal. É poder dar cada vez mais entrevistas como essa. É ter a oportunidade de representar outrxs como eu, pretos, periféricos e lgbtq+. Dizendo que nós existimos sim! Ocuparemos nossos espaços sim! E, por mais que isso doa nos corações dos mais raivosos, vamos continuar sorrindo, lutando e sendo felizes. 

Qual foi o momento especial que te fez sentir vontade de escrever um livro? 

Em uma conversa com o Valtinho Rege, um amigo meu roterista, diretor, escritor e youtuber, falamos sobre a possibilidade de escrever um livro com base no blog que eu já tinha. Antes mesmo de pensar em escrever um livro, eu deixava meus pensamentos num blog que leva o mesmo nome do projeto. Nele colocava as vivências, histórias, livros, filmes e momentos da minha vida e sexualidade. Eu tinha guardado um dinheiro para fazer um intercâmbio, mas vi naquela oportunidade um jeito de ajudar outras pessoas. Peguei essa grana e investi nesse projeto. Até hoje ele é feito totalmente de forma independente, canal, livro, custos… Tudo que recebo do livro ou o dinheiro que consigo guardar de algum salário, imprimo mais livros ou coloco no canal. 

E como esse processo criativo cresceu e virou um canal?

Sim, no meio tempo desse processo criativo. Tive a consciência do meu privilegio em poder escrever e publicar um livro. Da falta de representatividade que eu tive por ser um homem negro, gay e periférico, seja na moda, na tv ou na literatura. O canal tem o propósito de dar voz a esses outros LGBTQ+ para contar as suas vivências e com isso emanar mais empatia. 

Como você seleciona os protagonistas dos vídeos? São conhecidos, recomendações ou existe algum processo de seleção?

No primeiro ano de canal as pessoas que participavam eram todas amigas, ou amigos de amigos. No segundo ano, tive uma estratégia de convidar alguns youtubers lgbts para que com a audiência deles o projeto crescesse e chegasse a mais pessoas. Agora na terceira temporada do quadro “Como saí do armário?”, tenho a intenção de entrevistar meus seguidores. Já fiz gravações com alguns e está muito bom. Tem tanta coisa já gravada que eu já me perdi nas datas, mas eles irão sair. Em Julho, por exemplo, um inscrito do canal, o Raul, contará a sua história para o canal e o vídeo será lançado em sua festa de aniversário. Já está tudo combinado. Se preparem para chorar e aprender muito.

Você consegue lembrar a história mais marcante registrada no Guardei no Armário?

A mais recente que eu gravei foi o Raul, ele veio de Minas só para gravar pro canal. Só por isso, ele merece todo o destaque para essa entrevista. Nunca pensei que fosse visto, que fosse me tornar um militante ou mesmo um comunicador. Ele viu a seriedade do meu projeto e apesar de toda dificuldade que teve para vir para São Paulo, perdendo R$ 500,00 no dia da viagem, ele não deixou de vir, a sua chefe emprestou dinheiro pra ele e ele veio. 

Existe muito preconceito atualmente, voltado para diversas características, qual você acha que é a saída para acabar com essas reações tão extremas?

Eu acredito que não tenha uma resposta para isso. O que eu acredito já está sendo feito por alguns youtubers. Estamos espalhando mais empatia, mais conhecimento. Mais informações para quem realmente quer nos ouvir. Eu não costumo mais desperdiçar minhas munições com pessoas que não querem me ouvir. Penso que muitos privilegiados não querem mesmo abrir suas mentes de propósito. Eles já entenderam que erram, que são racistas, que vivem num sistema machista, que a lgbtfobia não é mimimi. Mas, preferem repetir e gritar aos quatro ventos que estão certos só para não perderem seus poderes.

Muitos deles na real, nem tem poder. Mas, por acharem que fazem parte de alguma casta mais “abastadas” continuam perpetuando todo tipo de preconceito. Se achar melhor que o outro ao ponto de diminuir a pessoa por causa da sua cor, sexualidade, religião, gênero… é de uma pequinês que eu sinceramente acredito que eles sentem prazer no que fazem. 

Qual a mensagem de força que você deixa para aqueles que estão sofrendo pelas suas origens, pela sua cor de pele ou orientação sexual?

A única coisa que posso escrever para essa pessoa é mais um trecho do meu livro:

“quem me dera
até para a flor no vaso
um dia chega a primavera” 

Na descrição do canal, você diz que o objetivo é mostrar para pessoas na mesma situação que elas não estão sozinhas. Se você pudesse mandar um recado diretamente para que o Samuel do passado soubesse que não está sozinho, qual seria?

A única coisa que eu diria pra ele é. Cuide da sua saúde, pois isso que você está passando agora fará todo sentido la na frente. Não internalize tanto seu sofrimento e sua dor. Faça terapia o quanto antes e não acredite em nenhuma verdade absoluta. A igreja hoje em dia é tudo que você tem. É tudo que você acredita. Mas, a vida é muito maior que o jardim da sua casa. Pense grande, estude, não deixem que te diminuam por conta da sua cor. Da sua sexualidade ou mesmo por conta do que você luta. Você tem muito medo de ficar sozinho na vida. Mas, chegará uma hora em que as pessoas pararam o que estão fazendo, para ler o que você escreverá.

Elas procuraram seu nome no google e verão seus vídeos. Você acha que existe um Deus punitivo, mas a vida é uma só. A sua existência não será em vão. Você não veio a essa vida apenas para nutrir a esperança de uma outra vida divina. Você veio a essa vida para salvar outras vidas da dor que hoje você passa. Essas pessoas olharão para você e trarão a esperança que esse Deus punitivo não deu. Olharão para o seu projeto e desistirão de tirar suas vidas, verão os seus vídeos e vão aprender a amar seus filhos como são. Por isso, fique calmo, o choro pode durar uma noite mas a alegria vem pela manhã.

Vimos que você teve sua primeira experiência drag na Parada LGBT de São Paulo esse ano. Como foi se olhar no espelho e enxergar a Mara Dandara Giovanni? 

Foi uma experiência fantástica. Não fazia ideia de como ficaria e quando me olhei pela primeira vez no espelho ainda desmontado, mas sem barba, já não me reconheci. Quando me vi drag então, eu fiquei em choque. Era eu, mas não era. Dou muito mais valor a essas profissionais pois é muito caro, muito trabalhoso e muito complexo ser drag. Acho que todos deveriam passar por essa experiência. 

Drag é muito mais do que só se montar. É uma expressão artística que tem uma importância política muito forte. Você continuar fazendo Drag? 

Talvez uma vez ou outra para festa entre amigos. Mas, aquele vídeo foi mesmo uma experiência social. A primeira de muitas. Quem sabe o que mais farei para o canal? Não sei, mas ideias é que não faltam. 

 

Guardei no armário, onde encontrar:

Youtube | Site | Facebook | Música Oficial

Quer saber mais sobre o Guardei no armário?

Mural da Folha | O Preconceito está Nu | Uol Estilo | Página Cinco | Canal das Bee | Chá dos 5 | Rede TVT | TV Brasil

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1 Comment

  • Reply Especial Retrospectiva 2018: 5 entrevistas para lembrar | Ré Menor 16 de dezembro de 2018 at 22:44

    […] Samuel Gomes – criador do Guardei no armário […]

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