Azar Crônico

Desculpem o transtorno, eu preciso falar sobre meu pai

23 de novembro de 2017

Escrever sempre foi o jeito que eu usei para lidar com algo. Com a despedida de um amigo. Com o encerramento de ciclos. Escrever é a chance que eu me dou de organizar pensamentos. De aprender, amadurecer e deixar para trás. Eu nunca quis escrever sobre isso. Eu nunca quis escrever sobre a saudade que tenho do meu pai. Por que eu não quero deixá-lo para trás. Eu não quero que deixe de ser uma bagunça em minha cabeça.

Demorei 5 anos para perceber que, escrever sobre meu pai e a saudade que sinto, não vai fazer com que as coisas fiquem no passado. Que escrever sobre ele não vai tirá-lo de mim, como quem toma doce de criança. Escrever sobre o meu pai, é presentear todos que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo. É presentear todos que sentem a sua falta. É abraça-lo mais uma vez.

Nós sempre tivemos uma ligação absurda. Você raramente veria um, sem ver o outro. Meu pai costumava contar para todos que foi ele quem fez minha primeira sopa. Se vangloriava das tardes em que eu dormi em seu peito e das tardes que passamos dançando bolero, comigo pisando sobre os seus pés. Ele tinha uma mania de sempre ter um cocker spaniel, branco e preto, chamado Dingo. O que acabou com a graça da minha infância algumas vezes. Quando eu ligava para minha avó e contava a novidade sobre o novo morador da casa, ela respondia: “Deixa eu adivinhar, é cocker, é preto e branco e se chama Dingo”. Não era mais novidade. Não se faz isso com crianças.

Papai costumava dizer que tudo tem a sua hora. E quando ele se foi, eu sabia que tinha chego a hora dele. Que ele jamais me desampararia se não fosse a sua hora. Papai se foi em um domingo. Como quem diz: Cansei desse tédio, é hora de explorar novos lugares. Passei meses, anos, esperando ele entrar pela porta de casa. Esperando que tudo não passasse de um sonho ruim. E, quando percebi que ele não voltaria, percebi que nós ainda levaríamos bons anos para nos reencontrar. E que eu nunca mais seria amada como fui nos primeiros 16 anos da minha vida.

Durante a vida, meu pai me ensinou muitas coisas. Me ensinou amar os livros. Me ensinou a ser uma Girl Power, a ser dona do meu nariz. Me ensinou a ser atenciosa e a estar sempre ao lado da minha mãe. Me ensinou a valorizar os estudos, a me esforçar pelo que eu queria (mesmo que ele fosse meio preguiçoso). Me ensinou a ter bom humor, a estar sempre alerta. Meu pai, em 16 anos, me preparou para a vida inteira. Independentemente da situação, consigo ouvir seus conselhos até hoje.

Meu pai não me preparou para a sua morte. Ele me ensinou a sobreviver sem ele, mas não me ensinou a suportar a dor. Após seu falecimento, meu pai me ensinou que o amor pode aumentar mesmo que você não veja alguém por anos. Me ensinou que a saudade dói e que nem sempre vamos saber lidar com ela. Me ensinou que é possível sentir saudade de cada detalhe sobre alguém. Até dos defeitos. Mas, acima de qualquer coisa, me ensinou a sentir que ele sempre vai estar comigo, mesmo que não seja de carne e osso.

Me perdoem, mas eu preciso agradecer!

Pai, eu nem sei como encerrar esse texto. Nada parece bom o suficiente quando se trata de falar sobre alguém como você. Acho que, tudo o que eu posso fazer é lhe deixar esse recado. Um agradecimento. Já são 5 anos sem o senhor por aqui e foram os anos mais malucos da minha vida. Existem muitas coisas sobre as quais eu gostaria de conversar contigo. Faculdade, o primeiro término de namoro, o primeiro estágio, carteira de habilitação, um novo namoro, a primeira viagem completamente só, a formatura, o primeiro emprego de carteira assinada, o primeiro prêmio de jornalismo. Sabia que eu já tive uma chefe que trabalhou com o senhor? Claro que sabe, o senhor jamais saiu do meu lado.

Pai, obrigada. Por que se eu cheguei até aqui, foi graças a você e a mamãe. Eu te amo e sinto sua falta todos os dias. Se cuida por aí, que eu vou me cuidando por aqui. Feliz 72 anos antecipados. E sim, o senhor está ficando velho.

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8 Comments

  • Reply Júlia 7 de dezembro de 2018 at 13:36

    Eu a conheci no workshop do Ramiro, lembra? Talvez sim, talvez não! Mas a questão é que lá eu já senti como você era uma pessoa especial! Lá você falou de algumas coisas, mas a que realmente mais mexeu comigo foi a maneira com que você falava do seu pai. E agora lendo esse texto consigo ver a evolução que aconteceu na sua vida, consigo notar que as suas características de hoje tem muito a ver com ele e fico muito feliz, porque apesar da dor e a saudade que não passa, você se mostrou forte e ao mesmo tempo sensível. Te acho uma pessoa muito especial menina, especial de corpo e alma. Enfim, eu só gostaria de parabeniza lá por correr atrás dos seus sonhos, de viver o que você acha correto, parabéns pela sua sensibilidade e discernimento! Seu pai deve tá todo orgulhoso de você!

  • Reply Eva Camargo 9 de agosto de 2018 at 17:11

    Que texto delicado e lindo. Esse é o grande problema dos pais, eles ensinam a batalhar, lutar, nos virar sozinhas, mas não a lidar com a saudade.

    Sinto muito por você e desejo para seu pai muita luz, onde quer que ele esteja. <3

    Com amor, Eva.
    amavelgirassol.blogspot.com

    • Reply Ê Blanc 9 de agosto de 2018 at 17:20

      Você vem tocando meu coração de tantas formas, Eva! <3 Meu pai foi um homem incrível e eu só espero estar orgulhando ele com todas as minhas decisões. Obrigada por isso.

  • Reply 826 notas de amor para Emma - Garth Callaghan | Ré Menor 30 de julho de 2018 at 17:52

    […] você  lê o blog há algum tempo, sabe que meu pai faleceu quando eu tinha 16 anos. Gostaria muito que meu pai tivesse me deixado alguma carta antes de falecer. Procurei dentro dos […]

  • Reply Carta aberta para a minha melhor companhia | Ré Menor 21 de junho de 2018 at 20:48

    […] por que sempre que precisei explorar novos caminhos, você esteve aqui. Ao meu lado. Quando nossa base de vida se foi, há 6 anos, fomos obrigadas a criar um novo ritmo de vida. Não estávamos preparadas e nem […]

  • Reply Nelma 4 de junho de 2018 at 08:48

    Saudade é algo inexplicavel, a perda ainda mais difícil do que a distância. Lembrancas, como é bom relembrar, alimento p alma, amar, como é bom amar e ser amado e poder sentir mesmo depois de uma perda a intensidade de tudo. Você é igualzinha ao Seu Blanc, intensa, carismática, inteligente determinada. Êrica qdo vc puder fale de como foi o amor de seu pai com sua mami, os primeiros encontros, até hoje me pego lembrando. Bj

    • Reply Ê Blanc 4 de junho de 2018 at 09:05

      Nelma! <3 Só você para me fazer chorar antes das 10h da manhã de uma segunda-feira. <3 Obrigada por ser uma segunda mãe e ser tão carinhosa comigo! <3 Pode deixar que vou escrever sobre o amor deles sim! <3

  • Reply Tennyson 30 de maio de 2018 at 18:44

    Emocionante…. cheio de vida com realidade que emociona o leitor. Parabéns E viva sempre a saudade, pois ela acaricia e alimenta o amor….

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