Azar Crônico

Pequena Êrica, nós precisamos conversar!

25 de abril de 2019

Eu lembro que quando eu tinha uns 4 anos, meus pais compraram meu presente do dia das crianças com alguns dias de antecedência. Colocaram aquela caixa enorme em cima do guarda-roupa deles e eu passei todos os dias que se seguiram deitada na cama, chupando o dedo (literalmente falando) e olhando para a caixa. Meu pai, preocupado, sempre perguntava “Você quer abrir?” e eu determinada a não estragar a alegria do dia das crianças antecipadamente, respondia “Só no dia!”. Esse diálogo se repetiu muito durante aqueles dias. Até que o tal dia certo chegou, eu abri o presente e recebi um super neném de brinquedo, que dei o nome de uma das minhas tias favoritas, Rosana.

Sempre que eu estou louca para desistir de algo, eu lembro daquela criança. E, consequentemente, eu me pergunto o que aquela criança acharia de mim hoje. Estaria orgulhosa? Decepcionada? Ou daria para o gasto? A verdade é que, meu eu criança, jamais poderia imaginar que aos 23 anos eu não teria mais aquele pai por perto. E, provavelmente ela fique decepcionada em saber que eu e nossa melhor amiga de infância não nos falamos todos os dias. Mas, talvez ela fique feliz de saber que ela ainda está na minha vida e que nosso amor independe da frequência de diálogo. 

E aí, pequena Êrica, qual é o seu veredito?

Provavelmente, aquela criança tinha uma ilusão de que seríamos médicas. Por que toda criança meio que quer ser médica. Tenho quase certeza que tivemos essa fase também. Logo nós, que não aguentamos ver sangue nem em seriado. Mentira, eu amo Dexter. Mas, sangue na vida real já é outra história. Talvez, o fato de eu ter transformado o amor pelas palavras em profissão seja algo que ela se orgulhe. Sendo assim, também fico pensando que talvez, se eu e a pequena Êrica nos encontrássemos no início do ano passado. Ela, provavelmente, teria me dado um chute na canela. Por eu fingir demência e não estar fazendo o que eu realmente amo. Tenho certeza que eu levaria um chute muito bem dado. Eu era meio faladora quando era pequena. Mas, talvez, a parte dela que ainda existe em mim, tenha me dado esse chute no meio do caminho até aqui.

Fico pensando, se conversássemos por algumas horas, quais seriam suas opiniões sobre o nosso futuro. Por que, com certeza, ela teria muitas opiniões sobre o que deveríamos fazer daqui para frente. Ela apontaria o dedinho na minha cara e ditaria algumas regras. E falando assim, até parece que eu era mandona. Entretanto, se tem alguém no mundo em que eu posso mandar, esse alguém sou eu. Sendo assim, nada mais justo do que ouvir sua opinião. Mas, acredito que nos duas estamos muito felizes com o que estamos fazendo com a nossa vida. Mais felizes ainda por ter todas as pessoas incríveis que temos do nosso lado. Por todos os mestres que passaram pela nossa história e nos moldaram até hoje. E, é claro, nós duas seguimos saudosas do pai que tanto amamos.

Nos vemos no futuro

Portanto, pequena Êrica, se me ver saindo do trilho que considera bom para nós, dê um jeito de me avisar. Sendo assim, se precisar mandar uns recados para mim, pede ajuda do universo. Eu prometo ajustar tudo que acharmos que precisamos e sempre buscar te encher de orgulho da pessoa que somos. Obrigada por ter sido tão determinada naquela semana do dia das crianças. É nela que eu me inspiro para não sair do foco e abrir mão da nossa história, mesmo depois de quase 20 anos. Principalmente, quando as coisas estão difíceis ou mais demoradas para acontecer do que aquele bendito dia das crianças.

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