Dois Quartos

Os tipos de Feminismos: você vê além do seu?

29 de janeiro de 2020

placa preta escrita, em branco, feminist

O Feminismo é o movimento que defende a igualdade entre os gêneros e a liberdade das mulheres. Mas não é o contrário de machismo, como muitos insistem em dizer, porque esse último promove justamente o contrário. E, como muitos movimentos, dentro dele temos diferentes tipos de feminismos.

Uma vez li na parede de uma cabine de banheiro em um bar/boteco aqui em São Paulo:

“Feminismo elitista não serve pra nada”.

E, não serve mesmo.

Pela segunda vez nessa coluna, vou falar diretamente com a galera branca, cis, hétero (até porque, é de onde me cabe falar). Principalmente, com as mulheres brancas, cis, hétero. Vamos lá.

A coisa mais linda que tem é falarmos sobre a igualdade salarial, direito a trabalhar, liberdade sexual, sororidade. Mas é muito fácil bradar sobre tudo isso sentada no sofá da sua casa, postando nas redes sociais, sob o ar-condicionado.

Mas, pare pra pensar. Como falar sobre direito de trabalhar quando se trabalha desde os 10 anos de idade, por exemplo, pra ajudar em casa. Ou, falar sobre liberdade sexual, quando se tem o corpo sexualizado e objetificado pela sociedade e pela mídia.

O feminismo negro trabalha essas pautas de uma forma diferente do feminismo branco. Esse, por sua vez, muitas vezes esquece das condições de outras mulheres que não desfrutam do privilégio que uma classe social ou a cor da pele pode oferecer. Esquece que o “feminismo de apartamento” só atinge uma pequena parcela da população que, no caso do Brasil, tem negros como maioria da população.

E o problema é ainda maior quando falamos, por exemplo, de mulheres indígenas. No Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual – Diversidade Dentro e Fora das Telas, uma das mesas teve a participação de Graciela Guarani, produtora cultural e cineasta indígena. Em certo momento da discussão, Graciela, que falava, por exemplo, sobre a dificuldade de indígenas em conseguir verba e patrocínio para seus projetos, disse que era lindo falar sobre sororidade e apoiar outras mulheres. Mas quantas mulheres indígenas nós estávamos vendo ali, em um seminário que promovia a diversidade?

Ela era a única.

Mas para ilustrar da forma correta a validade de feminismos que não contam com certos privilégios, nada melhor do que citar uma das primeiras ativistas dos direitos das mulheres negras: Sojourner Truth. Ela foi uma escrava liberta de Nova York, abolicionista e a primeira negra a conseguir, em 1850, ir à Primeira Convenção Nacional dos Direitos das Mulheres. Já, um ano depois, na Convenção de Akron, mesmo sem saber ler e escrever (a alfabetização de negros era proibida sob pena de morte), Sojouner discursou sobre os problemas específicos das mulheres negras, que tem que lutar contra dois excludentes: o gênero e a raça.

Bem crianças, onde há muita algazarra, deve haver alguma coisa fora da ordem. Eu acho que com essa mistura de negros do sul e mulheres do norte, todos falando sobre direitos… os homens brancos vão estar em uma enrascada rapidinho. Mas sobre o que estamos falando aqui?

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, serem levantadas sobre valas e ter o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, ou me deu qualquer “melhor lugar”!

E não sou uma mulher? Olhem para mim!

Olhem para meus braços! Arei a terra, plantei, juntei a colheita nos celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! E não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem – quando eu conseguia comida – e suportar o chicote também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei meu luto de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu!

E não sou uma mulher?

Daí eles falam dessa coisa na cabeça… como eles chamam isso? Intelecto. É isso mesmo, querido. Bem, o que isso tem a ver com os direitos das mulheres? Ou com o direito dos negros? Se o meu copo não tem mais que um quarto, e o seu está cheio, não seria maldade não deixar que eu tenha minha meia medida cheia?

E aí vem aquele homenzinho de preto ali e diz: “Mulheres não podem ter os mesmos direitos que homens porque Cristo não era mulher!” Ora, de onde veio o seu Cristo? De onde veio o seu Cristo? De Deus e de uma mulher! Homens não tiveram nada a ver com isso. Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo sozinha, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de colocar ele de cabeça pra cima de novo! E agora que elas estão pedindo para fazer isso, é melhor os homens deixarem!

Mas também não podemos nos esquecer do Feminismo das mulheres transexuais que, na minha opinião, é um dos mais negligenciados. Muitas mulheres, que se dizem feministas, ainda não entendem as mulheres trans como “dignas” do movimento. Algumas dizem que elas, por muito tempo, usufruíram dos privilégios masculinos e que, depois da transição, querem usufruir do Feminismo. O que é um absurdo por “n” motivos, como o fato de ninguém escolher ser transexual e querer sofrer todo o preconceito e perigo que isso implica em nossa sociedade ainda hoje.

O Feminismo deve ser para TODAS as mulheres.

A questão é: devemos, como mulheres brancas, usar esse privilégio – que não deveria ser privilégio nenhum – para colocar no protagonismo discursos que não são da nossa alçada. Devemos olhar para fora da nossa bolha e enxergar as outras mulheres. Ir além do Instagram e promover o verdadeiro Feminismo: O Feminismo que abranje todes.

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