Dois Quartos

Olhos que Condenam: a minissérie da Netflix que todo branco deve ver

11 de setembro de 2019

Olhos que Condenam. Essa é uma minissérie da Netflix, de 2019, que eu consegui assistir só o primeiro episódio dos quatro que tem. Comecei a ver no sábado passado (hoje é quarta) e ainda não voltei pra terminar. Nem sei se vou. Eu quero, não me entendam mal, mas não sei se consigo.

Eu, que cresci, fui criada e ainda vivo na bolha da classe média. Que estudei a vida inteira em colégios particulares e só fui começar a trabalhar quando entrei na faculdade. Eu, que fiz faculdade. Que nunca fui seguida em alguma loja por um funcionário. Que nunca precisei me preocupar em como me comportar perto de um policial. Que nunca não me senti aceita em certos lugares. Que nunca me fizeram acreditar que eu não pertencia a esses lugares. Que nunca tive que seguir certas “cartilhas”, ser excluída em diferentes níveis e em várias situações por causa da cor da minha pele. Eu, que visto o privilégio branco, me incomodei. Me senti afetada e me doeu ver o primeiro episódio dessa série.

Justamente por isso, peço licença para escrever esse texto.  

Pra quem não conhece, a minissérie é baseada em fatos reais e fala sobre um grupo de garotos negros do Harlem, em Nova York que, em abril de 1989, são falsamente acusados do estupro de uma mulher branca no Central Park. Todos os garotos são menores de 16 anos e, mesmo assim, são levados para a delegacia e “interrogados” sem a presença de um advogado. E, a maioria deles, nem sequer, com a presença de um responsável.

Coloquei interrogados entre aspas porque ali não houve interrogatório e sim coerção, agressões físicas e psicológicas por parte da polícia, que passa por cima de falta de provas e da lei para criar uma história que coloca os adolescentes na cena crime.

As cenas, que são uma ficção, chocam, machucam, são difíceis de ver.

Ainda mais quando você lembra que isso realmente aconteceu e que, na realidade, deve ter sido muito pior.

Isso aconteceu nos Estados Unidos, um país desenvolvido e com leis progressistas. Mas, nem por isso, menos racista. Não consigo imaginar como o jovem negro se sente assistindo a isso. Eles, que, historicamente, são os que mais morrem e são presos. Que tem sua existência, praticamente, ignorada pelo Estado.

Vindo para o Brasil, imagina você na pele de um jovem negro voltando da escola e tomando tiro da polícia. Tendo seu guarda-chuva confundido com uma arma e tomando tiro polícia. Indo comprar um cachorro-quente na esquina e tomando tiro da polícia. E tantos e tantos outros casos onde a cor da sua pele, o lugar onde você mora e sua classe social é determinante pra você tomar ou não tiro da polícia.

O nome disso é racismo institucional, que toma o jovem negro e pobre como um potencial criminoso.

Infelizmente, estamos vivendo um governo que reforça um discurso de regressão na questão de segurança pública (e de várias outras questões). Com um presidente que não se preocupa em proteger, educar e cuidar, principalmente, da população mais “frágil” institucionalmente e sim em “xingar muito no Twitter” e ofender a primeira-dama francesa, imagino um caminho tortuoso pela frente. Mas não eterno.

Não escrevo esse texto para atingir a todos e, muito menos, à população negra. Primeiro porque, mais do que ninguém, eles sabem de cor e salteado tudo o que falei ali em cima e muito mais e, principalmente, porque não estou no lugar de tentar ensinar qualquer coisa sobre racismo.

Mas falo pra você, pessoa branca que, assim como eu por muito tempo, não imaginava outras vivências além do meu mundo da lua. Comece a se colocar no lugar do outro, a chamada empatia. Se imagine no lugar daquele que não tem ou teve acesso às mesmas coisas que você, às mesmas oportunidades, ao inglês depois da escola, ao quarto individual pra poder estudar, à internet, à comida, à água. À vida. 

Assista a Olhos Que Condenam e se imagine no lugar daqueles garotos. Com 14 anos e sendo obrigado pela polícia, que deveria ser o símbolo da sua proteção, a confessar um crime que você não cometeu, apanhando e sendo coagido a isso. Não vai ser divertido e nem leve, mas, com certeza, é uma ótima forma de reconhecer privilégios.

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