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Me chame pelo seu nome: bissexualidade convicta

6 de novembro de 2018

Um dos maiores clichês na arte e na vida sobre bissexualidade é retratar como uma apenas uma fase, indecisão, promiscuidade ou leviandade. André Aciman, autor egípcio e Doutor  pela Universidade Harvard, não caiu nesse erro grotesco. Nem o filme adaptado ao cinema em 2017 cometeu essa gafe. Ufa!

Me chame pelo seu nome é contado a partir do ponto de vista do Elio, um garoto italiano de 17 anos. Intelectual, meio ansioso, gosta de tocar piano e devaneia bastante. Todo ano, na Riviera Italiana, o pai dele, professor universitário, convida um jovem acadêmico diferente para ajudar nas pesquisas. Além de claro, aproveitar o que o verão europeu tem de melhor.  Na década de 80, aparece Oliver: americano atraente, simpático, inteligente e professor novato, o que muda por completo a vida de Elio.

As influências proustianas são claras na narrativa de Aciman. Portanto, as memórias fortes, as descrições longas (e não tediosas), a intensidade dos sentimentos do Elio e a cena polêmica do pêssego são contadas no livro de forma sensível. Então, a identificação do leitor com o personagem fica fácil dessa maneira. Me senti profundamente envolvida. Fiquei apaixonada, com raiva, ciúmes, triste e receosa do que iria acontecer. Fui Elio durante toda a leitura.

Sim, ele nunca duvidou da bissexualidade. Elio tem plena consciência que também sente atração por Marzia, vizinha e amiga de infância. Portanto, a única angústia é se o Oliver correspondia ao sentimento. E por qual motivo ele havia se apaixonado por alguém com esse tipo de personalidade. A representatividade bissexual é extremamente importante. Gostar de homens e mulheres faz parte da sexualidade humana desde sempre, assim como os conflitos afetivos.

Meio italiano, meio brasileiro

O filme mantém isso fielmente. O diretor Luca Guadagnino soube produzir uma boa adaptação, algo difícil de se ver atualmente, sobretudo em obras com temas não tão abordados para o grande público. Tanto Elio (Timothée Chalamet) quanto Oliver (Armie Hammer) não duvidam em nenhum momento dos seus interesses românticos e sexuais. Os dois são desajeitados à sua maneira: um com toda a sua insegurança, enquanto que o outro mostra uma falsa confiança.

A Itália nos anos 80 também é retratada belamente e fielmente. Com suas vilas, frutas frescas, refeições ao ar livre, praias de água cristalina… e com muita nicotina e bebida. Principalmente tabaco. As pessoas são inquietas, hospitaleiras e calmas ao mesmo tempo. Causa um contraste agradável e familiar. Um dos responsáveis por isso em Me chame pelo seu nome é o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, que trabalha no meio há 20 anos. Se fosse um time de futebol, seria futebol arte.

A obra é incrível em vários aspectos: o leitor mergulha nos sentimentos, sente o sol da Itália, consegue cheirar os cigarros que são exaustivamente fumados e saborear os pêssegos, seja de qual maneira for: pelo paladar ou da mesma forma que o Elio. Me chame pelo seu nome é sinestésico e que, possivelmente, facilmente se tornará um clássico contemporâneo.

Agradecemos à ilustradora Ana Carolina Oda por fornecer essa fanart linda. Conheça mais o trabalho dela no perfil do Instagram: instagram.com/anacarolinaoda/?hl=pt-br

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