Azar Crônico

Amizades virtuais: karma ou sorte?

19 de julho de 2018

Dentre todos os karmas que eu poderia ter nessa vida, nasci destinada a ter com amizades. Não tô brincando, 99,9% dos meus amigos moram longe. Assim, a vida sempre me mostrou que nasci fadada a ter apenas amizades virtuais. Ou à distância. Seja lá como você prefere chamar. É um karma que me aflige desde muito pequenininha. Aos seis anos, minha primeira amiga se mudou para o interior do estado. Dois anos mais tarde, outra grande amiga se mudou para o outro lado do país. Naquela época não tínhamos como manter contato. Afinal, com a internet discada, não tínhamos como conversar com frequência. E assim foi indo. Toda vez que eu fazia um amigo, tempos depois ela ia embora.

A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude).

Simone Weil

Para piorar, quando fiquei mais velha e a internet mais evoluída, começaram as amizades com pessoas que nunca vi na vida. Orkut, bate-papo e skoob já foram palcos de grandes amizades que desenvolvi ao longo dos anos. E o karma me segue até hoje. Cheguei a me assustar quando parei para contabilizar que conheço virtualmente a Mila Pellicer desde os 13/14 anos. Assim, fui colecionando um grupo de amigos que vivem nos mais diversos cantos do país. Parte de mim sempre se sentiu muito sortuda, de conhecer todas essas pessoas diferentes. Conhecer realidades diferentes da minha, como gírias e outros costumes. Ou acompanhar a adaptação de um amigo que acabou de se mudar. Mas, a outra parte, sempre se sentiu meio sozinha. Meio desafortunada por não ter amigos para reunir nos aniversários ou nas férias. Que é quase a mesma coisa, se você considerar que eu faço aniversário em janeiro. 

Porém, quando a adolescência chegava ao fim e a vida adulta batia na minha porta, ouvi um comentário que mudou completamente minha visão. Conheci alguém que era de uma cidade onde eu conheço virtualmente algumas pessoas. “Que legal que você é de lá, tenho alguns amigos que moram na sua cidade”, eu disse. E a pessoa me devolveu com um “como você conhece pessoas de lá?”. “Da internet, ué”. Achei que fosse óbvio. “Ah, achei que fossem amigos de verdade”. Senti aquelas palavras me acertando como socos no estômago. Verdade seja dita, as pessoas daquela cidade em específico nem eram tão meus amigos assim. Mas, eu tinha uma porção de amigos de verdade. Que também são amigos virtuais e isso não invalida nossa relação. De forma alguma. Ainda assim, senti que aquela criatura que de nada sabe tinha desmerecido todas as minhas amizades. Emburrei. 

Não gosto da expressão “amigos da internet” porque sugere que pessoas que se conhecem on-line não são amigas de verdade, que a amizade é, de alguma forma, menos real ou significativa por acontecer pelo Skype ou via mensagens de texto. A medida de uma amizade não tem a ver com presença física.

John Green

Em seguida, quase como se eu já conhecesse o jogo do contente, pensei em todas as ocasiões em que meus amigos virtuais tinham me acolhido de alguma forma. Em todas as vezes que trocamos confissões até tarde da noite. Como algumas pessoas me abraçaram, mesmo longe, quando meu pai faleceu. Pensei em todas as cartas e presentes que já enviei para amigos, com semanas de antecedência e rezei para que o correio entregasse a encomenda no dia do aniversário do remetente. Pensei em todos os encontros que marquei durante viagens, só para ver pessoalmente o rosto de alguns amigos. Calculei o tempo de amizade que tinha com todas essas pessoas. Seis. Sete. Oito. Dez anos. Portanto, o que faz meus amigos virtuais não serem meus amigos de verdade?

E, aquela minha outra metade que se entristecia vez ou outra, já nem faz mais parte de mim. Hoje percebo o quão sortuda eu sou por ter em minha vida cada um desses amigos de verdade. Mila, Leo, Carol, Patrine, Bruna, Lari, Maycon e tantos outros nomes. Dessa maneira, só posso fazer as palavras de John Green as minhas. “A medida de uma amizade não tem a ver com presença física” e não tem mesmo. Nunca teve. Portanto, só me resta dizer, feliz dia do amigo (antecipado), amigos virtuais! Amo vocês. 

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