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A netflix e a nova forma de assistir filmes

5 de outubro de 2017

 

Confesse, você perdia bastante tempo nessas prateleiras!

Quando olhamos em retrospecto, quase não lembramos mais quais eram os procedimentos para assistirmos um bom filme em casa. O ritual começava no meio das prateleiras de uma locadora. Lá fazíamos um breve cadastro, com nosso endereço, dados pessoais e telefone fixo. Algumas poucas locadoras iam mais a fundo: local de trabalho, integrantes da família. Os funcionários sofriam para conhecer todos aqueles títulos, os atores de cada filme, gêneros, classificação, duração e tudo mais. Se você queria assistir um filme pouco conhecido, tinha que ir muito a fundo. Ali naqueles corredores o que dominavam eram filmes blockbusters. Procurar por vários filmes do seu ator preferido demandava uma consulta extensa ao banco de dados, correndo o risco do filme em questão estar alugado, ou simplesmente não constar este parâmetro. Mal sabíamos que apenas alguns anos depois, A Netflix chegaria para mudar este universo para sempre.

Após todo este processo – que por vezes demorava horas – vinha a parte mais legal: você ia com uma meia dúzia de caixas de DVD (para os mais jovens) ou VHS (ok, nem eu sou desse tempo) pra casa, reunia os amigos, fazia a pipoca e escolhiam qual seria o eleito daquela noite. Era sempre uma briga pois um já havia sido assistido por dois amigos, no outro tinha o ator preferido de uma amiga, e o que você mais queria ver, normalmente era rejeitado. Essa missão ficava para o dia seguinte, pois em dois ou três dias você deveria voltar com todas as caixas – assistidas ou não – para devolver à locadora. Ou pagaria multa.

No final, o processo era cansativo – várias idas e vindas, debate entre os amigos pra escolher um de cinco ou seis filmes, e devolvíamos sempre dois ou três que não haviam sido assistidos por falta de tempo. Mas assistir um filme bom, comendo uma pipoca entre amigos compensava todo o rolê.

O filme e a Blockbuster

Poucos são os casos em que empresas e produtos têm nomes com uma convergência de afinidades tão grande. Diferenciar as definições de Coca-Cola e refrigerante é um trabalho duro. Se quiser dizer que uma comida foi feita com amor, poderá falar que fez com Sazon. O mesmo acontece com filmes blockbusters. Apesar da definição ter surgido antes, a maior rede de locação de filmes nos Estados Unidos apropriou-se do nome com tanta força que é quase impossível não pensar em filmes de qualidade quando fala-se da empresa.

Blockbuster, por definição, é uma palavra de origem inglesa que indica um filme (ou outra expressão artística) produzido de forma exímia, sendo popular para muitas pessoas e que pode obter elevado sucesso financeiro.

A empresa tornou-se referência na locação de filmes por vários fatores. Primeiro, por contar com uma das maiores variedades de títulos. Segundo, pois a associação do nome com os filmes de sucesso fez com que os clientes a procurassem com maior frequência. Terceiro, a dimensão da empresa era gigante. Em todo lado havia uma locadora, o sistema era ágil, o cadastro integrado. A Blockbuster dominava o mercado de locação de filmes no EUA durante toda a década de 90 e 2000. Em 2005, a receita da empresa teve crescimento recorde, com faturamento anual de 6 BILHÕES de dólares.

Neste mesmo ano, o crescimento da internet possibilitava o surgimento de plataformas como vimeo e YouTube. Na época, plataformas como estas eram espaço para divulgação de vídeos caseiros, sem muita força no mercado. No entanto, outro sistema já completava 6 anos: a Netflix surgiu em 1999, como um serviço de assinaturas de aluguel de DVDs. É bem óbvio que os CEOs da Blockbuster sabiam deste cenário se formando. O que não imaginavam é que essse era o início do seu fim.

Sobre a Netflix

A plataforma que hoje tem 104 milhões de assinaturas, começou lá em 1997, como um serviço de compra e aluguel de DVDs. Pouco tempo depois passou a oferecer serviços por assinatura, não muito diferente do que é hoje. Em 2010 a Blockbuster rejeitou uma oferta de 50 milhões de dólares pela compra do serviços. Apenas meses depois, a empresa que pouco tempo antes dominava o mercado, pediu falência.

O resultado disso passou a refletir no mundo de forma gradual. Em 2010 já não alugávamos mais tantos filmes. A pirataria cresceu. A internet nos possibilitava baixar filmes com tranquilidade. As barreiras criadas pelas locadoras eram aos poucos derrubadas. Filmes cada vez mais inovadores e distantes percorriam o mundo.

It’s a girl!

A forma como nos relacionamos através desta cultura também mudou. Passamos a ter coletâneas de filmes pirata em casa, comprando ali no 3 por 10. Os amigos já traziam mais uma dezena para escolhermos. Este processo demorava ainda mais tempo, mas era sempre um marco na reunião de sábado a noite. Não precisávamos mais correr para ver filmes, pois o DVD pirata não precisava ser devolvido.

Neste ano de 2010 e um pouco tempo após, comecei a usar a Netflix com mais frequência. Lembro-me de um catálogo repleto de filmes clássicos, séries bem desconhecidas e pouquíssimos títulos recentes. A plataforma tinha um layout bem difícil e as indicações nem sempre eram as que queria assistir. Mas, eu já imaginava que seríamos tomados por completo por aquilo em pouco tempo. Naquela época já havia um hábito que se repete até hoje – algumas vezes passamos mais horas escolhendo filmes do que assistindo-os.

Netflix caminhando para o que conhecemos

O grande acerto da Netflix nesta época foi investir em seu sistema interno e na forma como ele identificava o cliente. Era muito além de nome, endereço, telefone e local de trabalho. Com base nos filmes que você assiste, a plataforma identifica seus gostos. A minha Netflix hoje me entende muito melhor que metade dos meus amigos. É quase possível saber quando ele percebe que estou triste e me indica um bom filme de drama. Ou quando estou cansado e quero apenas distrair, basta acessar a plataforma pra ter ali uma lista repleta de indicações de comédia. Mas eles querem – e estão indo – muito mais além.

O algoritmo da Netflix é capaz de traçar perfis de usuários tão específicos, que hoje funciona como ferramenta para produtoras, redatores e núcleos inteiros de criação cinematográfica. Dezenas de séries surgiram e tiveram enorme sucesso pois foram produzidas de acordo com as personas criadas pelo algoritmo. Mais do que indicar pra você filmes que têm a ver com seu gosto, a Netflix passou a assinar – produzir, financiar ou distribuir – séries pra você. Hoje a plataforma já conta com uma infinidade dos famosos originais netflix, em diversos segmentos. O sucesso começou com House of Cards, passou por séries como Narcos (inclusive falei sobre ela neste post), alguns bons animes, além da aclamada série de séries da Marvel: Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Os Defensores.

Parte do catálogo de originais netflix. São mais de uma centena de títulos.

A Netflix é foda!

A Netflix não apenas derrubou grandes empresas como a Blockbuster. Eles não apenas facilitaram o processo de assistir um filme. Não é na forma como ele apresenta os filmes que mais têm a ver com você que está o sucesso da ferramenta. A revolução Netflix está na forma como produzem conteúdo, apoiam criadores e produtores independentes no mundo todo. A empresa não possui amarras com patrocinadores ou anunciantes: quem financia tudo são os assinantes. Isso trás uma nova forma de lidar com os conteúdos. Com dezenas de milhares de assinantes atraídos por diversos temas, a empresa produz cada vez mais conteúdos para os mais diversos públicos, sobre os mais diversos temas e formatos.

Tenho muita curiosidade para saber quais serão os próximos passos da empresa. Há rumores que todo esse investimento em produções assinadas por eles não estejam tendo tanto retorno. Porém, pessoalmente, sou apaixonado por dezenas de títulos autorais deste catálogo, e torço muito para que sigam fortalecendo este caminho. Aproveito aqui para citar alguns títulos caso você esteja querendo conhecer mais: Master of None, Atypical (que inclusive tem um post aqui no blog) e Sense8 – mas é melhor assistir sem a família por perto.

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