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Corumbiara, caso enterrado – João Peres

14 de agosto de 2017

Corumbiara, caso enterrado

Livro: Corumbiara, caso enterrado;
Autor: João Peres;
Editora: Elefante;
Páginas: 304;
Sinopse: Em julho de 1995, famílias do sul de Rondônia em busca de terras ocuparam a fazenda Santa Elina, em Corumbiara, um gigante de 18 mil hectares. No cumprimento do mandado de reintegração de posse, ocorreu um conflito que deixou doze mortos. Cinco anos mais tarde, três policiais e dois sem-terra foram condenados. Esse resumo pode ser encontrado em qualquer reportagem sobre os fatos. O essencial de Corumbiara, caso enterrado é cavocar além das aparências, dos números, da superfície. O jornalista João Peres, autor do livro, entrevista sem-terra, policiais, políticos, advogados, integrantes de movimentos sociais, promotores e juiz. Revisa processos e documentos. Promove o cruzamento de dados para tentar oferecer ao leitor um conjunto que permita formar a própria opinião. Busca romper a dicotomia empobrecedora que tenta a tudo enquadrar: bons e maus, amigos e inimigos. (Skoob)

O município do interior de Rondônia, Corumbiara, é um lugar de terra fértil, assim como a maior parte do estado. Foi transformado em município em 1992, pouco antes de ser o centro das atenções de todos os holofotes dos veículos de comunicação do país.  A fazenda Santa Elina, pertencente ao fazendeiro Hélio Pereira e localizada em Corumbiara, foi ocupada por camponeses que estavam em busca de um pedaço de terra.

Corumbiara, caso enterrado

Muitos desses posseiros vieram anos antes, enganados por autoridades, com promessas de escola, saúde e enormes terrenos que não seriam tomados por ninguém. Mas a dura realidade consistia em desbravar hectares e mais hectares de mata. Sem ter certeza de que, esses enormes terrenos, seriam seus no futuro. A chegada do Movimento dos Sem Terra (MST) no estado trouxe confiança a um povo que não tinha esperança há muito tempo. Conseguiram assentar várias famílias, após duas revoluções, e consideravam que a fazenda Santa Elina era caso ganho.

Para os posseiros, mais uma vez a realidade se fez presente durante a madrugada do dia 9 de agosto de 1995. Policiais militares, responsáveis pela reintegração de posse da fazenda, e os sem-terra trocaram tiros. 12 mortes foram confirmadas. 9 sem-terra, 2 policiais e um não identificado. Cinco anos mais tarde, dois camponeses e três militares foram condenados. Quem participou do que alguns chamam de “chacina”, outros de “combate” e poucos chamam de “caso”, alega jamais ter esquecido. 

O inicio do livro Corumbiara, caso enterrado

Em 2010, o jornalista paulista, João Peres, veio para Porto Velho, a capital de Rondônia, pela primeira vez. Como repórter da Secretária de Direitos Humanos da Presidência da República, veio acompanhar um julgamento da histórica chacina ocorrida no presídio Urso Branco. Durante sua estadia na cidade, foi a um posto de gasolina aonde encontraria alguém que o levaria até Claudemir Gilberto Ramos, o Pantera. Um dos posseiros condenados pelo caso de Corumbiara. João Peres não sabia muito sobre o caso até então, imaginava que a “grande fazenda”, como adjetivavam Santa Elina, era um pedaço de terra que levaria mais ou menos 10 minutos para ser percorrido a pé, correndo.

A entrevista acabou se tornando um projeto de biografia do Pantera, encomendada pelo próprio Claudemir. Após algumas entrevistas para dar vida aquela biografia, João Peres se viu mergulhado no caso da fazenda Santa Elina. De começo, não tinha justificativa para explicar em que aquelas entrevistas seriam utilizadas. Em 2015, passados 20 anos do ocorrido, João Peres publicou o livro-reportagem que documenta a história que chamou atenção em 1995, mas foi esquecida pouco tempo depois.

Foram quatro anos de apuração. Conversou com mais de 70 pessoas, algumas por mais de uma vez. Possuí 126 horas de entrevistas gravadas. Dentre os entrevistados estão sem-terra, policiais, políticos, advogados, integrantes de movimentos sociais, promotores e juiz. Além disso, revisou processos e documentos, contra a vontade de muitos. Muitos desses relatos registrados nos documentos eram rasos. Sem contar, que já estivam sendo apagados por conta da falta de conservação. No inicio, o livro faz um apanhado histórico sobre Rondônia. Expondo seus avanços e suas falhas, para contextualizar o leitor de outra região.

O livro documenta uma história esquecida

 

O autor faz o cruzamento de dados e narrativas para que o leitor forme a própria opinião sobre o caso. Relata ora o ponto de vista dos sem-terra, ora a versão dos policiais. Busca romper a “dicotomia empobrecedora que tenta a tudo enquadrar: bons e maus, amigos e inimigos”, como deixa claro desde a orelha do livro até a última página. Durante a introdução, Peres fez uma das mais verdadeiras descrições sobre Rondônia:

“Antes de conhecer Rondônia, a primeira cena que me vinha à mente era a floresta. Densa, gigante, úmida, assustadora. Hoje, saltam na memória campos imensos, desolados, vazios, num fim de tarde, à espera da próxima safra de soja ou da liberação de uma boiada, colados na rodovia federal pela qual circulam caminhões ensandecidos, apressados para cortar o estado de ponta a ponta, desviando repentinamente de crateras surgidas no meio da pista, e raramente consertadas.” 

No fim das contas, a realidade sobre os ocorridos na fazenda Santa Elina ainda deixa muitas dúvidas. Para mim, o ponto alto do livro é ter a certeza de que, em meio a jornalistas acomodados ao aconchego da redação, ainda existem aqueles que fazem valer as belezas da profissão.  

Corumbiara, um caso enterrado, é um livro esteticamente lindo. Completo, com as fotos feitas pelo fotógrafo Gerardo Lazzari.  É muito mais do que o aprofundamento dos fatos. É a documentação de trechos de arquivos judiciais que em poucos anos vão deixar de existir, por falta de cuidado dos responsáveis. É a lembrança de um caso que fora esquecido a muito tempo. É um livro muito importante para a história do estado e do país. Para todos que gostam de livros históricos e jornalísticos, está mais do indicado! 

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