Azar Crônico

Amizades acabam, mas o que importa é que elas existiram

28 de setembro de 2017

Era uma tarde bem comum, para ser sincera. Eu tinha lá pelos meus 13 anos, minha mãe cursava a faculdade à tarde. Eu e meu pai, aproveitamos o tempo livre para passear no shopping, meio atoa. Nada como crescer com um pai aposentado, que tem todo o tempo do mundo para curtir a gente. Esbarramos com um amigo do seu último trabalho. O tal amigo estava acompanhado pela esposa e pela filha, que tinha a mesma idade que eu. Nunca fui uma pessoa muito tímida para fazer amizades. Sorrimos. Nem ela. Começamos a conversar. 

Você bem sabe como é. Aquele exato momento em que você conhece alguém que parece ter vivido exatamente as mesmas coisas que você. E, cada frase que falamos, é seguida por um “nossa, eu também!”. Tempos de msn, trocamos e-mails e viramos a noite conversando. Só de lembrar, chego a sentir saudades. Dali em diante, tudo desenrolou por um caminho que nos levou a ser melhores amigas para sempre. Com direito a colar da amizade, conversar todos os dias e despertar ciúmes nas amigas mais antigas. Seriamos madrinhas de casamento uma da outra. Nossos filhos seriam amigos desde sempre. 

Quem você pode julgar duas adolescentes? Se já é incrível conhecer alguém que entende a gente na fase adulta, imagina nesses anos de amadurecimento? Os pais dela me acolheram como filha, os meus acolheram ela. Foram uns três anos de amizade plena. Até aniversário de amizade comemorávamos. Nesse meio tempo, a coisa toda começou a desandar. Com coisas bobas, que foram virando uma grande bola de neve. Mas não é exatamente assim que os relacionamentos começam a caminhar para o fim? Um monte de frases não ditas. Momentos importantes que foram compartilhados com outros amigos e não entre nós. Um namoro abusivo que só aumentou a distância. Quando percebemos, havia um abismo. Meu pai faleceu e eu nem chego a lembrar se ela foi uma amiga presente nessa época. Eu lembraria se ela tivesse sido? 

Não nos leve a mal, nada do que aconteceu foi intencional. Pensado. Premeditado. Só aconteceu. Amizades acabam e nós precisamos conviver com isso. A grande questão é: Como? Alguém que esteve ali quase o tempo todo, de repente não está mais. Nós não tivemos brigas catastróficas, mas guardamos pequenas mágoas. Esse é o nosso maior erro. Nós sabemos. Outra questão é: sentimos falta e temos carinho uma pela outra. Porém, sabemos que nunca mais vamos voltar a ser aquelas adolescentes. É como um papel que foi rabiscado. Nunca mais vai ser um papel branquinho e sem marcas. Tudo é clichê demais, por que todos nós já tivemos uma amizade assim na vida. 

Amizades acabam e o que fica?

Depois de um tempo a gente conversa, diz tudo o que guardou esses anos todos. Nos perdoamos e até tentamos manter o contato. Raramente as coisas vão fluir com a naturalidade de antes. Parece que cada mensagem pesa mais que uma tonelada. E uma tonelada é muito mais o que eu posso aguentar. Aí começamos a achar outros culpados para esse abismo atual. Trabalho, faculdade, falta de tempo. Maldita rotina, né? 

No fundo sabemos, que a amizade já foi. Acabou. Ponto final. Bola para a frente. Segue o baile. Quantas expressões para seguir adiante nós temos na língua portuguesa? O carinho ainda existe. A saudade dos velhos tempos também. Ainda chamamos os pais uma da outra de “pai e mãe”. Força do hábito. Provavelmente, quando uma de nós casar, a outra vai saber por alguma rede social. Mas não vai estar lá. Amizades acabam, afinal. 

Acho que, o que nos resta, é guardar o carinho. Manter a saudade. Pensar em todas as coisas que aprendemos uma com a outra e o quanto foi bom dividir as famílias. Torcer pela felicidade uma da outra e desejar que tudo corra bem. Quem sabe um dia, vendo as fotos antigas, a gente só consiga lembrar o quanto foi bom estar ali. Amizades acabam, mas o que importa de verdade, é que elas existiram. Independente do tempo que duraram. 

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