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A Independência da Música

7 de setembro de 2017

Embora com muitos questionamentos sobre a veracidade dos fatos, neste dia, a 194 anos, um homem portando seu sabre posta-se às margens do rio Ipiranga e declara que o país se tornaria independente. Esta e outras versões da nossa história são relembradas todos os anos nesta mesma data, e falar sobre independência é sempre muito contraditório – pelo menos quando se trata da história do Brasil: Eramos dependentes de quem? Hoje temos nossa autonomia? Isso nos trouxe melhorias na época?

Bem, como esta não é uma coluna de história do Brasil, resolvi trazer o assunto do dia para um panorama que conheço um pouco melhor: A Independência da Música, ou como as pessoas chutaram o pau da barraca da indústria fonográfica.

Primeiro vamos entender um pouco como funciona a indústria da música no mundo, como um todo. Para isso, vou usar a banda que virou o mundo do avesso nos anos 60, quando se trata de mercado musical: The Beatles.

Na época em que a música se tornava cada vez mais acessível, pubs no Reino Unido estavam sendo dominados pelos jovens ávidos por tudo o que era produzido de som moderno e diferente, quatro rapazes tocavam o seu repertório como todos os fins de semana, no The Cavern Pub, quando Brian Epstein entrou para conhecer o som e aqueles garotos que mais tarde se tornariam a maior banda de todos os tempos (segundo eu mesmo). Brian reconheceu ali a oportunidade de utilizar as ferramentas que sua família dispunham – uma loja de discos e uma gravadora, para ir além de um ou dois singles: ele via nos Beatles uma marca a ser profundamente aproveitada.

Este exemplo – e toda a história da banda e do produtor, que contarei em outras edições dessa coluna – reflete o que podemos chamar de “dependência” da música: artistas sendo regidos por grandes gravadoras, através de selos e produtores, afim de se tornarem marca, produto além música. É importante frisar que esta ferramenta é válida, não há nada de errado em ganhar dinheiro desta forma. Porém, na época, isso fechava as portas para n outros artistas que não tiveram a mesma sorte.

Independência da música

Na graphic novel “O quinto Beatle” é retratada a relação do produtor com a banda, seus desafios, momentos de união e sua luta diária para aceitar-se como é.

Nos anos 70, com o surgimento da cultura do hip-hop e, mais tarde até os anos 80, com o nascimento do punk rock, artistas viam cada vez menos espaço para trabalhos que não se encaixavam no padrão que as gravadoras estavam habituadas a trabalhar. Junte toda a revolta social que estes (e outros) movimentos carregavam, com o avanço da tecnologia fonográfica – gravadores portáteis estavam sendo lançados, novas formas de produzir e consumir música sendo desenvolvidas, e você terá uma bolha prestes a estourar, com gente disposta a falar “Fuck the Label” (ou foda-se o selo).

Acredito que nestes momentos da história da música podemos determinar que nasceu a cultura da música independente, mais tarde chamada de indie. É a forma que o artista é chamado quando não tem vínculo com grandes gravadores, selos ou produtoras. É talvez o principal motivo pelo qual pessoas afirmam que “o rock morreu” ou que “não se faz mais músicas como antigamente.

Não se faz mesmo. A música mudou, e a possibilidade de produzir sons autorais com certa independência, além de dar muito mais liberdade criativa ao artista – que agora não precisa mais se moldar às políticas da gravadora – também dá ao público muito mais opções.

O oposto disso seria o que chamamos hoje de mercado mainstream. As mídias tradicionais têm uma grande participação sobre o que é consumido pelas culturas de massa, e a música é sem dúvida um dos elementos mais influenciados neste processo. Se temos a cultura musical do sertanejo dominando o Brasil, dois motivos cito como os principais: é o meio musical mais organizado (a níveis empresariais) e são os maiores investidores em espaço de TV e rádio. Prova disso é que desde 2015 não há nenhuma música de rock entre as 100 mais tocadas nas rádios, e destas, cerca de 80% são sertanejo.

Sobre o mercado underground:

Contudo, há um mercado enorme de música que é alimentado pela cultura independente. O mercado underground (ou longe do mainstream, ou como queira chamar) movimenta dezenas de milhões de reais todos os anos, e temos surgimento de grandes cenas musicais pelo país: Goiânia, Porto Alegre e o nordeste são grandes berços de bandas independentes do cenário nacional, e há ainda artistas do Norte – Amazonas, Rondônia e Acre, cito aqui – que estão a muito tempo batalhando e conquistando seu espaço.

A música se tornou independente a pouco tempo, é verdade, mas construiu em pouco mais de 30 anos um legado que transita por gerações e que, hoje mais do que nunca, alimenta grande parte do que consumimos. O Brasil é berço de um cenário musical independente gigantesco, que pode nunca chegar às grandes mídias ou ser estar na lista das mais tocadas em rádio, mas estamos longe de ter uma cena morta. A música tornou-se realmente livre com o grito de independência dado por muitos, a tempos atrás, e hoje com a tecnologia a todo vapor, podemos consumir cada vez mais e mais este cenário.

E agora, deixe-me voltar para meu café. Até breve :)

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