Café com tudo

6 motivos pra ter orgulho da nova música brasileira

21 de setembro de 2017

O Russo Passapusso tá dizendo que são cinco, mas não deu: vão ser seis! (Foto: I Hate Flash)

Para muita gente, a música brasileira resume-se a sertanejo, pagode e funk. Os bons produtos musicais criados aqui nasceram entre os anos 70 e 90. Nomes como Caetano, Gil, Chico, Elza, são os mais reconhecidos. Pra quem gosta de rock, Legião Urbana, Raimundos e Los Hermanos representam tudo que há de melhor. O lance aqui é que não estamos no meio dessa gente, e há muito mais sonoridade no Brasil do que estes nomes. A música brasileira vem explodindo novos nomes, estilos e letras. Mesmo num mundo musical que depende de “rótulos”, estes têm cada vez menos importância para os artistas. E eu tô aqui pra mostrar isso!

A música brasileira é referência pra muita gente. Reconhecida mundialmente por sua versatilidade, flexibilidade, suas diversas vertentes e nuances. Ok, até aqui, não trago nenhuma informação nova pra vocês. O fato é que para a maioria do mundo, e até pra uma boa parte dos brasileiros, música brasileira é resumida em MPB e Bossa Nova. Caetano, Gil, Chico, Elza e poucos outros são os mais reconhecidos. Para quem gosta de rock: Legião Urbana, Raimundos e Los Hermanos representam tudo que há de melhor. Pelo menos para uma parte da nossa população.

Eu não estou aqui pra me opor a tudo isso. Estes, e tantos outros nomes, alimentaram a cultura brasileira durante décadas e ainda continuam produzindo músicas atualíssimas. Você pode conferir o último trabalho do Chico Buarque aqui e da rainha Elza Soares aqui (e aliás, que clipe lindo). Aqui na coluna Café com tudo eu quero mostrar um pouco mais de como a música é. Inclusive, e principalmente, longe do mercado de massas, o nosso nem tão querido mainstream. Então pegue sua caneca, sirva um café quentinho e descubra novos nomes pra adicionar à sua playlist!

Dica: Cada banda acompanha o link do artista no Spotify, você pode ir ouvindo enquanto lê sobre cada um.

1. BaianaSystem

Se você tá ouvindo Baiana pela primeira vez, deve estar pensando o mesmo que eu pensei há um tempo atrás: “onde essa gente escondeu esse som por tanto tempo?”. A banda capitaneada por Russo Passapusso e Beto Barreto, vem despontando nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que revolucionou o carnaval de salvador em 2016, foi atração de dezenas de festivais pelo Brasil. Sua sonoridade é tão inclassificável, que cabe em qualquer estilo: do axé ao rock, passando pelo ijexá, dubstep e pelo soundsystem. Baiana é hoje – na opinião desse que vos escreve – o ápice do que há de brasilidade na música.

Fica quase impossível falar de BaianaSystem sem correr o risco de ser injusto com a importância que a banda tem para a música. O álbum Duas Cidades, foi eleito o melhor de 2016 por vários portais de música. É um marco na música brasileira. Fazendo conexões de estilos musicais da cultura negra – do reagge ao axé-, Baiana trata de temas extremamente humanos o tempo todo. A cidade e as pessoas, o mundo politizado e o mundo corrompido (como em Lucro) estão no meio do discurso.

Pessoalmente eu não consigo ouvir BaianaSystem sem querer levantar, pular e dançar. Tive a mesma sensação quando fui ao show deles, em Goiânia. A energia que presenciei ali mexe comigo até hoje. Eram milhares de pessoas pulando numa energia incrível. Eu nunca havia visto, em vários anos de festivais e shows por aí. Ouça, leia e conheça. Você não vai ver BaianaSystem nas rádios ou na TV. Mas, basta olhar qualquer show deles, para ver como a energia movimenta públicos enormes por onde pisam.

2. Carne Doce

A cidade de Goiânia é um dos maiores berços da música nacional na última década. Ali acontece uma frequência de festivais, como em poucas outras cidades no país. Bananada, Goiânia Noise e Vaca Amarela, são apenas alguns. Com tanta banda boa sendo produzida na cidade, Carne Doce é um dos sons mais incríveis que ouvi naquelas terras do cerrado. Quando fui pro Festival Bananada 2017, conversei com alguns amigos da cidade. Era quase unânime ouvir a dica “não perca o show deles, vai ser incrível”. Foi tanto que o hype que eu estava ali na frente daquele palco quase não me deixou fotografar. Quando subiram ao palco, Salma Jô (vocalista) e seu esquadrão não desapontaram nem um pouco. A energia da banda, as melodias incríveis e as letras extremamente impactantes me fizeram sair de lá apaixonado.

Seu álbum mais recente é o Princesa (2016), que firma uma postura social muito marcante, em letras extremamente fortes, como “Artemisia”. As músicas tem a duração suficiente para se tornarem únicas, ao mesmo tempo em que conversam entre si. O instrumental da banda acompanha com propriedade a qualidade das letras, com timbres limpos e completos, que prosseguem cantando a música mesmo quando Salma está no palco apenas performando. Carne Doce é um suspiro de energia matinal. É daquelas bandas para se ouvir tomando um bom café enquanto observa pela sacada o tempo passar lentamente. É uma reflexão contínua, mas que no fim faz você pensar um pouco mais em tudo ao redor.

3. Supercombo

Quando comecei a trabalhar com produção de eventos alguns anos atrás, não entendia nem de música e nem de artistas. Minha relação com a música era totalmente voltada para a emoção que me causava. A mensagem que a letra me transmitia, o movimento que o som me provocava. Foi nessa época que conheci Supercombo. Lá em 2014, eu estava realmente estudando e descobrindo novos nomes da música. Passando por várias vertentes, mas sempre com minhas referências voltadas a bons timbres de guitarra, elementos complexos e letras carregadas de significado.

Supercombo foi uma das primeiras bandas que conheci que reunia tudo isso. Aliados à uma energia incrível, tanto nos palcos quanto nas redes sociais, e estavam começando a despontar no cenário nacional. No ano seguinte eles estouraram de forma surpreendente, porém muito merecida. Em 2016, eu já havia produzido mais de uma centena de eventos, quando surgiu a oportunidade de trazê-los para tocar aqui em Porto Velho.

Pela primeira vez eu teria contato com ídolos de forma tão direta e profissional. Não poderia ter sido diferente: Tudo o que eu pensava e sabia sobre eles era pouco perto do que se mostraram ser. A musicalidade da banda só veio a crescer desde o lançamento do Amianto (segundo álbum, de 2014). No mais recentemente, Rogério (álbum de 2016), eles puderam firmar as características presentes em sua sonoridade. São timbres cheios, letras envolventes e a energia incrível que a banda apresenta quando sobe no palco.

4. Rico Dalasam

De todos os nomes dessa lista, o Rico Dalasam é o único que ainda não consegui assistir o show ao vivo. Porém, o que Rico faz com a música merece um destaque nesta lista. Unindo o pop ao hip hop, com batidas que tornam impossível manter o corpo estático, Dalasam tem uma postura pública muito política e isso reflete em suas músicas. O seu álbum Orgunga (2016) foi eleito um dos melhores do ano. Seu novo EP Balanga Raba (2017) está fazendo sua música circular por todo o país.

Coloquei Rico Dalasam nesta lista pois o considero o artista mais amplo no cenário em que está inserido: a música pop brasileira com características fortes, marcadas por discursos libertadores, grooves dançantes e com a base do hip hop. Rico é uma figura emblemática, que agrada muito quem o escuta lá fora. Além de tudo, é um compositor incrível. Escrevendo sucessos como “Todo Dia” com a Pabllo Vittar,  “Mandume” com o Emicida, além de participações com Curumin, e mais uma porrada de artistas. Ver tanta versatilidade nas letras de um mesmo artista é sem dúvida motivo de orgulho.

5. Liniker e os Caramelows

No mundo atual, tão cheio de extremismos e com tanto ódio sendo destilado, Liniker é uma fuga. Em um cenário brasileiro conturbado de 2015, o lançamento do EP Cru e da música Zero foram um grito. A liberdade com que Liniker e seus Caramelows nos entregam voz e alma durante a música são quase uma transa. A música de amor era cantada com tanto amor, com referências na black music e no jazz, mas ao mesmo tempo 100% brasileira. Liniker entregou ao mundo, em Zero, uma personalidade poucas vezes antes vista no cenário Brasileiro. A partir dali passou a ganhar espaço em casas e festivais pelo Brasil, mesmo antes do seu CD de estreia Remonta (2016) ser lançado. A voz de Liniker abraçava, enquanto sua banda e suas Backing vocals incríveis te pegava pela mão e te tirava pra dançar.

Mesmo abalados pela perda da cantora Bárbara Rosa, no fim de 2016, a banda continuava explodindo cada vez mais. De pele negra e uma variedade de turbantes na cabeça, Bárbara esteve nos palcos até os últimos dias, mesmo lutando contra um câncer. Até hoje é homenageada no palco pela banda, que sempre posiciona um microfone a mais, quase convidando-a a voltar. Toda essa forma de fazer música com amor e com a alma, faz de Liniker e de sua banda um expoente incrível. A voz e o corpo que fazem à frente do som e dos palcos carrega uma energia conquistadora.

O poder do negro e o amor pela cor, a admiração pelas pessoas e a força dos relacionamentos estão dentro de cada uma das faixas da banda. A complexidade que corre ao lado da MPB se mistura com o pop e a black music. Com muita propriedade transformam-se em músicas únicas. O orgulho que tenho ao ver a luta e trabalho desta reunião de pessoas tão incríveis liderados por uma personalidade tão marcante quanto a dela, é inexplicável.

6. Promessa: Triz

Todos esses nomes já são realidade no cenário musical brasileiro. Porém, o ritmo fluído e acelerado com o qual as coisas surgem neste meio, trazem à tona artistas cada vez mais especiais. Foi nesta velocidade que Triz impactou todo mundo no meio desse ano. Em “Elevação Mental“, Triz canta sobre as lutas, julgamentos e preconceitos que passa. Rapper transgênero não binário, Triz trás em sua música, ao mesmo tempo, dois elementos muito fortes. Enquanto no flow, desafia-nos a pensar nossas atitudes e enxergar como são julgados na sociedade aqueles que são diferentes. Já no refrão da música, vem um banho de amor: A voz quase parece de outra pessoa, e numa melodia doce e carinhosa, Triz mostra a que veio.

Numa entrevista, Triz comenta: “A ideia é justamente mostrar que pessoas como eu são inteligentes sim, são talentosas sim, e podem fazer tudo que quiserem e desempenhar qualquer papel que quiserem”. No mundo moderno é até assustador que este tipo de afirmação se faça necessária. Triz é sem dúvidas um enorme motivo de orgulho pra quem anseia por novos ares na música brasileira. Seu rap é sobre dores e superações, mas principalmente sobre amor, acima de qualquer rótulo.

Ouça a playlist completa no spotify!

Pra completar, fiz uma playlist com 47 provas de que o Brasil ainda produz música boa. São artistas dos mais diversos segmentos, bandas de décadas de carreira e álbuns inéditos. A playlist complementa o post e é uma boa companhia pra todos os dias. Passe um café, sirva duas xícaras – pra mim sem açúcar, por favor, e vamos escutar o que há de bom.

Esse conteúdo foi produzido pelo produtor audiovisual Rafael Vieira. 

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